Segunda, 21 de Maio de 2012
   
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Sex, 16 de Abril de 2010 09:06

Entrevista: Walter Lídio Nunes

Na edição 33, a Revista do Prodfor conversou com o presidente do Movimento Empresarial Espírito Santo em Ação, Walter Lídio Nunes. Embora nascido em Porto Alegre (RS), Walter Lídio é um velho conhecido dos capixabas e tem uma longa folha de serviços prestados ao Estado, reconhecidos com a entrega feita a ele pelo Governo do Estado, em novembro do ano passado, da comenda Jerônimo Monteiro.
Afinal, o engenheiro, hoje presidente da CMPC Celulose Riograndense, construiu uma bem-sucedida carreira de 25 anos na Aracruz Celulose (atual Fibria), boa parte dos quais atuou como diretor de Operações e Logística da companhia no Espírito Santo. Nesta conversa, ele fala sobre questões de mercado e a importância das certificações. Confira.

Vamos começar falando um pouco do Prodfor, cuja origem tem ligação com a Aracruz Celulose e com a sua gestão na companhia. Como o senhor avalia a criação e os resultados do Programa?


Esta é uma iniciativa inédita, pelas circunstâncias e pela característica do programa. O Espírito Santo tinha grandes empresas, com características de clusters pela demanda de serviços e materiais, e tínhamos uma série de pequenas empresas com dificuldades em acessar o mercado oportunizado pelas grandes. Estas estavam inseridas nas demandas do mercado globalizado e sua competitividade, e as empresas locais, despreparadas para as demandas que as grandes exigiam. O Prodfor teve a grande virtude de fazer esta ponte entre a qualificação demandada pela grande empresa compradora e a pequena ofertante. Esta qualificação hoje é feita em etapas e, com isso, as empresas podem almejar atingir excelência nas suas gestões, atendendo aos rígidos critérios que formam o PNQ (Prêmio Nacional da Qualidade). Os resultados foram extremamente positivos, diria até surpreendentes, e servem de exemplo para várias unidades da Federação, que buscam copiar este modelo. Eu diria que, sem este modelo de interação entre os grandes projetos e as empresas locais provedoras de serviços e materiais, a sociedade capixaba teria aproveitado bem menos a onda de desenvolvimento com que o Estado tem sido contemplado.

Na condição de presidente do Movimento ES em Ação, como avalia o atual momento da economia capixaba, particularmente do ponto de vista das oportunidades de negócios para os fornecedores locais?


A economia capixaba esta vivendo um clima extremamente favorável para seu desenvolvimento. No Espírito Santo, há uma combinação de fatores positivos que se somam: a descoberta e aumento das reservas de petróleo, incluindo-se aí o pré-sal; a expansão dos grandes projetos que já existiam; a oportunidade logística, pois representa uma alternativa de saída para o mar que toda a retroeconomia da Região Sudeste e Centro-Sul precisa; e, a  tudo isso, adiciona-se a qualidade da governança pública que o hoje o ES tem. A eficiência do Estado tem motivado empresas que não estão no contexto anteriormente exposto a virem para cá.

A seu ver, quais os segmentos onde estão e estarão as melhores oportunidades para estes fornecedores até o fim da década?

Sem dúvida que a cadeia do petróleo terá uma importância fundamental, não só pelas atividades de exploração em si, mas também com a atração de outras atividades industriais ligadas a ela. A posição do ES também buscará ampliar projetos ligados à mineração e siderurgia. Mas não devemos nos esquecer de que os grandes projetos existentes poderão crescer ainda mais e trarão também muitos empregos e oportunidades para os empreendedores locais, que hoje, em bom número, já saíram das fronteiras do Estado e estão trabalhando em várias partes do país e até no exterior.

O que ainda julga necessário desenvolver-se mais para que os fornecedores capixabas possam se beneficiar de oportunidades que virão com os grandes investimentos previstos para o Estado, caso se concretizem? Onde estão os pontos fracos?

Entendo que o modelo do Prodfor tem dentro da sua gestão avaliações permanentes e a busca do aperfeiçoamento constante e esta característica deve continuar, pois nas revisões e redimensionamentos procura-se construir uma adequação permanente às demandas que o mercado proposto dinamicamente reclama. O importante é que as novas grandes empresas entrantes no ES estejam alinhadas com este esforço ímpar e inédito que o Prodfor se propõe. É importante destacar que qualquer empresa que venha para o ES tenha em si compromisso com o desenvolvimento sustentável, onde não só as questões ambientais estejam contempladas, mas também a responsabilidade de desdobrar a sua cadeia econômica, trazendo o maior ganho possível à economia e à sociedade capixaba, gerando empregos e qualificação, a fim de tornar a sociedade local mais justa e com melhor qualidade de vida para todos.

Analisando o panorama da produção industrial capixaba, quais aspectos o senhor destacaria como mais importantes para a manutenção do chamado “ciclo virtuoso” da economia local?

O ES precisa seguir no caminho que tem trilhado. Uma gestão pública eficiente e que tenha planejamento de longo prazo, como o ES 2025, que se consolidou não só como um plano do governo atual, seu iniciador, mas um plano da sociedade. Precisa continuar qualificando e disponibilizando mão de obra para ocupar os novos postos de trabalho que serão criados. E a sociedade local concedendo a sua licença social e, com isso, recebendo de braços abertos os novos projetos, que virão somar aos esforços de desenvolvimento sustentável que todos nós almejamos.

O senhor esteve por muito tempo na Aracruz Celulose, cuja história praticamente inaugura o início da moderna industrialização do Estado. Nessa função, quais as principais contribuições que o senhor considera ter dado ao Estado?

Como executivo de uma grande empresa como foi a Aracruz (hoje Fibria), que cresceu e se firmou como a maior empresa de celulose do mundo mesmo antes da fusão, tivemos oportunidade de vivenciar as várias fases da companhia na sua escalada de crescimento. Neste contexto, tivemos a oportunidade de participar da vida socioeconômica e política do ES e conviver com um conjunto de empreendedores motivados em dar a sua contribuição para o crescimento do Estado. No ES, a classe empresarial entendeu que, fora a gestão do seu negócio em si, existe uma responsabilidade social de contribuir voluntariamente para a melhoria e qualificação das instituições que formam o conjunto da sociedade e, com isso, melhorar a qualidade das decisões públicas que afetam a todos.

Em sua análise, o Espírito Santo está no caminho certo para garantir um desenvolvimento com qualidade e sustentabilidade? Por quê?

Entendo que o ES tem todas as condições para garantir o desenvolvimento sustentável que contemple os aspectos econômicos, ambientais e, sobretudo, os sociais. Para que isto ocorra, precisamos continuar tendo uma governança pública qualificada, uma sociedade qualificada em termos de cidadania moderna - isto é, atuante, participativa e exercendo o devido controle social - e um setor empreendedor proativo não só no seu papel econômico, mas também ciente de suas responsabilidades enquanto agente de transformação social. O ES está no caminho certo e, portanto, o que precisa é persistir nesta trilha e aprimorá-la pela vivência continuada e pelo aprimoramento do diálogo construtivo permanente entre todos os componentes do tecido social organizado.

O senhor acredita que a perda de receita advinda da perda dos royalties do petróleo vai afetar de maneira importante a economia local? Por que e em quê, principalmente?

Em se mantendo a proposta do deputado federal Ibsen Pinheiro, aprovada na Câmara dos Deputados mas não ratificada pelo Senado, penaliza-se o  ES, pois interfere em receitas que já estavam previstas no planejamento do Estado e de vários municípios. Entendemos que a proposta em discussão é golpista, pelo caráter retroativo que impõe a contratos já existentes. No caso do Governo Estadual, a injustiça é ainda maior, por ter sido este um Estado que ajustou as suas contas públicas e recuperou a capacidade de investimento em infraestrutura e na qualidade dos serviços prestados, visando à melhoria da condição de vida da população local. Basta um olhar na melhoria dos indicadores sociais que medem a evolução da qualidade de vida da população capixaba. Os royalties têm por finalidade cobrir os gastos públicos necessários para atender às demandas que a exploração de petróleo cria nas regiões onde se dá e esta ação poderá ser prejudicada.

O senhor continua no ramo da celulose, que conhece bem e é uma das commodities mais importantes para o Estado. Qual a perspectiva, a curto, médio e longo prazo, para esse mercado no mundo e para esse nicho, dentro da economia do ES?

O Brasil é e continuará sendo o país mais competitivo na produção da celulose de eucalipto no mundo. Esta commoditie consegue manter-se competitiva mesmo com o crescente e elevado chamado custo Brasil. O mercado continuará sendo crescente, pela demanda mundial e pela necessidade de papel, sob as suas diversas formas e finalidades. Faz parte do desenvolvimento social da humanidade. O ES tem a possibilidade de alojar mais uma unidade industrial em Barra do Riacho, devido à possibilidade de ter plantios em terras degradadas existentes e, além disso, pelas condições de logística de exportação em Portocel, que são extremamente competitivas.
Como o senhor analisa os efeitos, sobre a economia local, da transferência dos centros de decisões de várias grandes empresas aqui instaladas (Garoto, Aracruz, Escelsa, Oi, entre outras), algumas das quais mantenedoras do Prodfor, para outros centros urbanos?
Este processo tem ocorrido em outros estados também. Várias das empresas citadas têm demonstrado a preocupação e a necessidade de, mesmo tendo seu head office em outros estados, não perder o contato e a presença construtiva no ES, procurando participar da vida do Estado e procurando ter decisões nos seus negócios que considerem as questões locais do Estado e da sua sociedade. Uma empresa moderna, competitiva, sabe que acima de todas as suas licenças legais necessárias para empreender as suas atividades, precisa da maior de todas, que é a licença social. E acredito que todas as empresas citadas estão legitimamente empenhadas em manter as suas licenças sociais.

Do ponto de vista das empresas, o que falta ao Espírito Santo para deslanchar de vez como destaque na Região Sudeste?

O ES é um Estado pequeno em termos territoriais, mas grande em termos das suas oportunidades de crescimento. Temos tudo para nos afirmar, em todos os quesitos que pudermos usar para julgar um Estado em termos econômicos, sociais e ambientais. Temos perspectivas invejáveis de crescimento e de desenvolvimento sustentável. A evolução que o ES tem experimentado não tem sido divulgada pela mídia nacional na proporção que deveria. O ES é um exemplo para o Brasil.
Nós, capixabas, precisamos ter consciência disto e termos uma autoestima elevada e muito orgulho do Estado que estamos construindo. Temos que ter orgulho das dificuldades que superamos nestes últimos anos. Temos que nos vangloriar das perspectivas de crescimento, que poucas regiões deste país têm. Temos que ter a responsabilidade de divulgar as boas coisas que temos e o nosso sucesso.
Isto não significa que não temos coisas a evoluir. Devemos buscar crescer ainda mais em termos sociais e econômicos. Mas isto não implica desconsiderar o que temos conseguido, pois o otimismo realista é um fator decisivo para mantermos a trilha atual e a nossa estima em alta.

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