Terça, 22 de Maio de 2012
   
Fonte
 
 
Qui, 29 de Julho de 2010 15:58

Entrevista: José Antonio Bof Buffon

Recém-alçado à condição de presidente do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo, o Bandes, - um merecido reconhecimento ao competente trabalho desenvolvido, desde 2003, como diretor de Crédito e Fomento da instituição, que conhece profundamente - o economista, professor e pesquisador do Departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) José Antonio Bof Buffon é o entrevistado da Revista do Prodfor.

Mestre e doutorando em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Buffon foi assessor especial de Regionalização das Ações de Ciência e Tecnologia do Ministério de Ciência e Tecnologia, assessor técnico na Área de Desenvolvimento Regional e Social do BNDES, além de prestar consultorias na área de desenvolvimento para o Governo do Estado e para prefeituras. Suas principais áreas de interesse e atuação são o desenvolvimento do Espírito Santo, industrialização, metropolização, rede de cidades, desenvolvimento e planejamento urbano.

Revista do Prodfor: Vamos começar fazendo um balanço do Credfor e seus resultados:
Buffon: Com mais de R$ 6 milhões demandados desde o início do ano, o Credfor permite que instituições financeiras cadastradas disputem, por meio de um leilão reverso, o financiamento de capital de giro para empresas certificadas que possuem contratos de fornecimento de produtos ou serviços. A disputa possibilita às empresas capixabas obterem financiamento de capital de giro com taxas mais competitivas, uma vez que o Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), o coordenador do sistema, atua como o fiador da operação perante a instituição financeira que vence o leilão.

Inédito no Brasil, o Bandes Credfor é uma das melhores soluções para empresas que têm necessidade de capital de giro. As fornecedoras passam a ter melhores condições, obtendo capital de giro para cumprir suas metas e mais participação nos contratos. Assim, prevê-se um maior impacto no crescimento estadual, colaborando para a geração de renda, emprego e desenvolvimento. Isso porque além de tratar com empresas certificadas e com contrato em vigor, o Bandes garante as operações por meio de uma carta-fiança, o que contribui também para minimizar as taxas de juros.

Quando essa modalidade de financiamento foi lançada?
Em julho de 2006

Qual o valor total financiado no ano de 2009? Qual o valor médio por operação e qual aa taxa média de juros?
Até 2009, foram realizados 28 leilões, de R$ 466 mil de média, com valor médio da taxa de juros de 1,4% ao mês. Foram realizados financiamentos com prazo entre um e 36 meses. Os bancos que participaram dos leilões foram Banestes, Sicoob (cooperativas de Cachoeiro de Itapemirim, Alfredo Chaves e Linhares); Brasil, Unibanco, ABN Real, Caixa e Daycoval.

O ano de 2009, com suas turbulências pós-crise, afetou de alguma forma a demanda das empresas capixabas pelos financiamentos via Credfor? Como, e o que isso indica?
Sim, apesar de haver muita procura, percebemos uma retração das empresas fornecedoras, que estavam receosas de assumir compromissos financeiros a médio e longo prazo. Entretanto, estamos vendo um movimento de retomada desse dinamismo econômico, com as empresas refazendo seus planejamentos de longo prazo, voltando a investir, a aumentar a produção e a contratar mão de obra. Neste ano já tivemos seis leilões, nos quais foram afiançados R$ 6 milhões. Além destes, temos mais R$ 5 milhões em fase de análise no banco.

Quais os setores produtivos que mais recorrem ao Credfor?
Os setores metalmecânico, de construção civil e de prestação de serviços de um modo geral. A partir deste ano, empresas do Espírito Santo com atividades relacionadas ao comércio exterior operadoras do Fundo de Desenvolvimento das Atividades Portuárias (Fundap) também podem participar do sistema de leilão eletrônico Bandes Credfor.

A linha ainda é apenas para capital de giro, ou poderá ser ampliada para outras finalidades?
Os recursos contratados são de livre uso do cliente, tanto para giro quanto para investimento. Além das empresas certificadas Prodfor, também podem participar empresas com certificação ISSO, SGQTec, Qualiobras, Qualiases e operadoras de comércio exterior, vinculadas ao Fundo para o Desenvolvimento das Atividades Portuárias (Fundap).

Como o senhor avalia o desempenho do Credfor desde sua criação? Qual sua maior importância?
O Credfor permite que o Bandes conheça e faça um mapeamento das necessidades das empresas. Isso pode permitir que novos produtos sejam criados e que elas ganhem em dinamismo e em competitividade. Neste ano, tivemos uma novidade: a possibilidade de empresas certificadas no Fundap participarem, uma vez que o certificado conferido pelo Bandes à empresa fundapeana guarda as características de uma certificação de qualidade.

O que a análise histórica desses dados (referidos na primeira pergunta) revela ou indica sobre o desempenho das empresas, dos negócios ou da economia local? É possível, por exemplo, inferir como anda, em linhas gerais:
Em linhas gerais, percebemos que houve sim uma melhora nas empresas atendidas pelo Credfor no que diz respeito ao planejamento, à contratação de mão de obra, a qualificação da gestão, isso tudo para ganhar mais competitividade e lucratividade, com o objetivo de cumprir os contratos e ganhar em qualidade na prestação de serviços ou da oferta de produtos.

A inadimplência no Credfor continua em zero? Favor comentar sobre isso.
Sim. O sistema Credfor é um sistema seguro, porque por um lado as empresas aptas a solicitar os leilões são certificadas, ou seja, possuem um nível gerencial e de prestação de serviços satisfatórios, além de terem contratos vigentes com as grandes empresas-âncora, ou são certificadas no Fundap. Além de tudo isso, quando participa do leilão, o banco já fez uma análise prévia da empresa, e o sistema é baseado na garantia que o Bandes confere à operação de contratação dos financiamentos via leilão pela internet, reduzindo os riscos. Até hoje, de todo o valor demandado em leilão, não existe qualquer inadimplência, porque a empresa solicitante faz a captação tendo como referência seu contrato de prestação de serviços. Trata-se de um bom negócio para as empresas prestadoras de serviços, para as empresas âncoras, para o Estado, para o Bandes e também para os bancos investidores, que veem no sistema Credfor uma garantia para suas operações, reduzindo seus riscos.


Como tem sido a aceitação dos bancos para o Credfor? E a disposição dos bancos em financiar os contratos, sofreu alguma influência da crise? Por quê?
Não, pelo contrário. Como já dissemos, os bancos vêem no sistema Credfor uma garantia para suas operações, reduzindo seus riscos, porque além de tratar com empresas certificadas e com contrato em vigor, há a garantia do Bandes. É isso, inclusive, que permite às taxas as contratações alcançarem níveis como uma taxa de 1,1% ao mês para um financiamento de R$ 500 mil em 18 parcelas, por exemplo. Todos os leilões realizados a partir de março/2010, tiveram taxas contratadas entre 1,19% ao mês e 1,32% ao mês.

O desempenho da Selic tem algum reflexo nas taxas praticadas? Qual?
Nunca deixa de ter significado, porém a taxa do Credfor é fixada individualmente, contrato a contrato, mediante o leilão. Em cada leilão está em jogo a reputação do fornecedor, a do comprador, a análise do crédito do Bandes e dos bancos que vão disputar o leilão, de forma que há um elevado grau de descolamento entre o nível geral da taxa Selic e o custo das operações contratadas, posto que o que está em pauta é o risco da operação. Mas é evidente que, ao mudar o patamar da Selic, muda também o patamar do leilão.

Como presidente de um banco estadual de fomento, como o senhor analisa o ano de 2009 para as empresas do Espírito Santo? E para as finanças estaduais? O que destacaria de mais positivo e de mais difícil em cada um desses setores?
Do ponto de vista fiscal, o Espírito Santo estava preparado para a crise mundial, vez que o governador vinha provisionando recursos desde meados de 2008, o que garantiu que tivéssemos mantidos os investimentos necessários. Mesmo assim, vimos a retração de algumas empresas em alguns setores tradicionais da clientela do banco, como o de rochas ornamentais, que perderam muito com o mercado externo. Mas a crise não atingiu igualmente todas as empresas do segmento. Algumas perderam, mas as mais bem estruturadas ganharam muito. A confirmação dos investimentos previstos para o Estado vão alavancar o crescimento, mas precisamos nos preparar. O nosso crescimento está garantido por muitos anos, até por décadas. A nossa sociedade deve se concentrar é na qualidade desse crescimento. A cadeia de fornecedores é um dos componentes mais importantes para promover essa qualidade, uma vez que faz a mediação entre a encomenda de grandes projetos e a sociedade local. Nesse contexto, a qualidade do crescimento do Estado, repito, deve ser o nosso maior compromisso, como gestores públicos, Estado e municípios, mas também pelos empresários e empreendedores em geral.

Qual a expectativa do Bandes para 2010 em relação ao Credfor? E em relação à economia do Espírito Santo?
Com a retomada do crescimento econômico no Estado, o Bandes está percebendo que micro e médias empresas estão procurando alternativas seja para cumprir com as suas obrigações de final de ano seja para ampliar investimentos por causa de novos contratos. Estão registradas no sistema Bandes Credfor mais de 282 empresas aptas a solicitar, a qualquer momento, um leilão eletrônico. No que tange à economia estadual, queremos ver a retomada do crescimento, da geração de empregos e de renda especialmente fora da Região Metropolitana, nas cidades do interior, que mais precisam de crédito e oportunidade, permitindo o crescimento dos empreendedores locais. Em termos de crédito oferecido pelo Bandes, 2010 será o melhor ano da história do banco para a liberação de crédito rural: pelo menos R$ 120 milhões. Para o microcrédito serão R$ 50 milhões, e para as micro e pequenas empresas, outros R$ 50 milhões; isso significa recursos diretamente nos municípios, dinamizando o comércio local, por exemplo, e beneficiam a quase 20 mil famílias agricultoras e microempreendedores.

Como o senhor avalia a importância do Prodfor enquanto iniciativa que busca qualificar fornecedores locais para inserção na cadeia de suprimentos de grandes empresas?
Toda iniciativa que confira competitividade e qualidade às empresas, permitindo que elas possam assumir grandes contratos que lhe tragam bons retornos, é muito válida. O Prodfor é uma das iniciativas mais importantes nesse sentido. Além de cumprir seu papel, é uma certificação capixaba, feita por nós. Queremos ver as empresas e os empreendedores capixabas ganhando mercado no Espírito Santo e fora, sem protecionismo, comprovando a sua qualidade, fortalecendo o ciclo da economia local e gerando empregos, aumentando renda, ampliando serviços. Precisamos investir para que a cadeia produtiva esteja à altura das grandes empresas que a mantêm. E o Prodfor é uma das soluções que vemos nesse sentido.

Se concretizados todos os investimentos esperados (alguns já anunciados) para o Estado do Espírito Santo no período 2010-2019 - da ordem de R$ 100 bilhões - a tendência é que a demanda por crédito das empresas capixabas aumente muito. O Bandes tem recursos e está preparado para atender esse aumento "chinês"?
O Bandes está se preparando para ser excelente na promoção do desenvolvimento do Estado, por meio de suas soluções de crédito. Isso quer dizer que todas as nossas ações estão se voltando para o financiamento aos micro e pequenos empreendimentos, tanto rurais quanto urbanos, que vão ajudar a sustentar toda a base desse desenvolvimento que está sendo anunciado para o Estado nos próximos anos, contribuindo para a qualidade do desenvolvimento do Espírito Santo. E promover o desenvolvimento inclui preparar as pessoas, promover a ascensão social, o desenvolvimento de empresas, a promoção da economia do interior do Estado e o fortalecimento da rede de cidades.

Leave a comment